fbpx

Artigos Acadêmicos

O que é ser Caveira

Junte-se a nós. Somos mais de 1 Milhão e 200 mil Caveiras!

Entre para nossa lista e fique por dentro...

RESUMO

Este artigo trata de uma reflexão sobre as implicações de uma ‘mentalidade caveira’[1] para a sobrevivência urbana e a autodefesa. Trata-se de uma pesquisa exploratória, de caráter bibliográfico e descritivo, com abordagem qualitativa e que desenvolve uma discussão acerca da necessidade de moldar o pensamento, ou mentalidade, a partir de uma cosmovisão própria, resiliente, construída a partir da percepção do ambiente em que se insere e passível de assimilar as mais diversas situações com o mínimo de abalo possível, oferecendo capacidade de resistência e flexibilidade de ação mental em situações de crise. O objetivo geral deste ensaio é:

Apresentar o que é ser ‘Caveira’ a partir da intersecção com a arte marcial israelense: Krav Maga. Delineia-se como objetivos específicos: Conceituar a noção do que é ser caveira em termos de cosmovisão; apresentar o conceito de resiliência e suas características e relacionar as características de uma pessoa resiliente à mentalidade necessária para se adquirir o status de ‘Caveira’. Conclui-se com este ensaio que há intersecções possíveis entre ser ‘caveira’ e o conceito de resiliência. É possível moldar a mente a partir de experiências e treinamentos que te levam a suportar pressões sem grandes deformações, muito mais que isso, possibilitando transformações positivas que conduzem a um novo estágio de formação: o estágio ‘caveira’.

Palavras-chave: Resiliência. Sobrevivência Urbana. Mentalidade. Artes Marciais.

1       INTRODUÇÃO

Uma das características mais marcantes da sociedade atual é a relativização da vida, dos costumes e das relações. Não há absolutos. Assim, em nome de uma concepção falsa de ‘liberdade’ há um maior cerceamento das condutas, restrições quanto ao que se fala, no que se acredita e até mesmo no que se pensa. Há uma relativização progressiva (e seletiva) sobre todas as coisas.

Já não possuímos pontos estáveis de orientação, todas as camadas se derretem a favor de uma nova construção de sociedade, cada vez menos orientada por pontos de referência e mais ‘livre’, ainda que seja uma liberdade falsa, na verdade, apenas uma mudança de senhorio. Passamos a ser escravos da individualidade. Uma modernidade cada vez mais líquida, como ensina o sociólogo Zygmunt Bauman[1], e cada vez mais isolada em si mesma, com medo e sem referenciais.

Quando isso se relaciona ao desenvolvimento humano, a questão da sobrevivência urbana passa a ser uma questão idealizada, mais ligada a filmes e séries que especificamente perceptível pelo cidadão médio. A violência das ruas passa a ser tida como ‘normal’, relativizada por construtos sociais que eufemizam a figura do bandido, gerando identificação com o marginal e criando uma espécie de ‘síndrome de estocolmo’ coletiva.

O que antes se nomeava como ‘bandido’ e ‘marginal’ passa a ser impopular e politicamente incorreto. A vitimização passa a ser a palavra de ordem e o próprio diabo passa a não ser tão ‘diabo’ assim, mas apenas um reflexo de uma opressão patriarcal exercida por ‘Deus’. O bandido passa a ser vítima e a vítima passa a ser cordeiro, conduzidas ao matadouro inocentemente e sem reclamar, por um bando de lobos que, ainda dizem fazê-lo pelo ‘bem da sociedade’ e pelo ‘futuro do país’.

Como reagir a tudo isso? Como cultivar uma mente que se oponha ao estabelecimento de uma doutrinação que envolve poderosos e ao mesmo tempo sobreviver em uma sociedade que relativiza tudo e eufemiza sociopatas, serial killers e bandidos de forma geral, evocando a culpa sobre a própria sociedade, que, ao senso comum, é culpada ‘pelos monstros que cria’?

Esperar que os garantidores da lei e ordem sejam onipresentes e onipotentes e que sejam os únicos a se posicionar contra a ascensão da bandidolatria e da vitimização do mal é ser tão ingênuo quanto quem acredita que se pode combater a violência com flores ou mantras de pacificação.

 Assumir a responsabilidade, e portanto, o ônus de garantir a própria segurança e da sua família, requer um conjunto de habilidades, comportamentos e mentalidade, a que denomino ‘mentalidade Caveira’. Mas como se constrói isso?

O objetivo geral deste ensaio é: Apresentar o que é ser ‘Caveira’ a partir da intersecção com a arte marcial israelense: Krav Maga e o conceito de Resiliência. Especialmente se busca: Conceituar o que é ser caveira em termos de cosmovisão; apresentar o conceito de resiliência e suas características e relacionar as características de uma pessoa resiliente à mentalidade necessária para se adquirir o status de ‘Caveira’.

Entender que em um contexto pós-moderno, em que as relações se relativizam, em que absolutos são desconstruídos e em que o mal passa a ser relativizado (quando não, adorado), exige de cada cidadão uma reconstrução adaptativa de si mesmo, uma mudança de posicionamento, de mentalidade. Entre essas capacidades, está a resiliência.

2       POR QUE ASSOCIAR O TERMO ‘CAVEIRA’ À RESILIÊNCIA?

O conceito de resiliência provém da física. Thomas Young, cientista inglês que em 1807 concebeu o conceito, ligando-o à resistência dos materiais. Basicamente, resiliência é “a quantidade máxima de energia que um dado material pode absorver ao ser submetido a determinado impacto, deformando-se sem se romper e voltando posteriormente à forma primitiva”[2].

Ao ser aplicado à psicologia, o conceito de resiliência passou a identificar “o quanto as pessoas poderiam suportar de pressão, ou de estresse, antes de apresentarem abalo psicopatológico irreversível[3]”. O neurocientista Rick Ranson liga esse fenômeno ao que ele chama de ‘neuroplasticidade dependente da experiência’[4] e que pode ajudar uma pessoa a encarar as tensões e estresses inerentes à sua vida em sociedade, com a serenidade capaz de fazê-la resistir a tensões cada vez maiores sem ‘se romper’.

Dentro do treinamento marcial, tanto no exército, forças especiais, polícias ou em artes marciais, especificamente o Krav Maga (método Caveira) a resiliência é cultivada a partir das experiências, em parte construídas gradativamente, em parte impostas pela dinâmica particular de uma situação de realidade simulada. Ser capaz de acostumar o cérebro a ‘pensar’ em momento de sobrecarga de adrenalina é uma habilidade que diferencia um cidadão comum de um artista marcial de alto nível ou de um combatente SEAL, BOPE, GIR, GOE, COE, dentre outras forças especiais de combate.

2.1      UMA MENTE PREPARADA

Na particularidade do Krav Maga, uma arte marcial criada para o contexto militar de guerra declarada, envolvendo técnicas letais, a resiliência é fator que auxilia na ‘neuroplasticidade dependente da experiência’; exercitando no kravista a capacidade de pensar em situações de risco, identificar elementos que o auxiliem a sair dessa situação  e a sobreviver em território hostil (no caso, isso pode ser descrito como a própria sociedade em que a pessoa está inserida).

A associação entre a letal arte marcial israelense e o conceito de resiliência destaca que, mais que um corpo preparado, é preciso uma mente pronta. O famoso adágio marcial “mens sana in corpore sano”[5] (Mente sã em corpo são) atribuída ao poeta romano Juvenal é utilizada como uma apologia ao exercício físico, porém deve também lembrar que um corpo preparado sem uma mente preparada não tem grande valia. Na hora do combate real, em que os riscos são reais, nosso cérebro primitivo toma o controle, entramos em uma espécie de ‘modo sobrevivência’ e paramos de pensar.

Treinar sua mente a se aproximar cada vez mais tardiamente desse ‘modo sobrevivência’ é essencial. No contexto moderno, para sobreviver às dificuldades pós-modernas, com seu relativismo, com sua bandidolatria, com sua sensação contínua de medo e individualidade, é preciso se adaptar. Um assassinato não choca mais, um estupro é apenas um dado estatístico e uma centena de vítimas vale menos que a liberdade (ou a vida) de um criminoso, portanto, encarar a realidade e perceber que não é possível contar com terceiros para se manter seguro.

2.2      ASSUMINDO AS RESPONSABILIDADES POR SI E PELOS SEUS

William H. McRaven, ex-comandante dos SEALs, famoso corpo de elite dos fuzileiros navais da Marinha Americana, em seu clássico livro “Arrume sua cama”[6], conta uma história sobre os primeiros passos de um Seal. Em um campo de treinamento, um soldado baixo, com 1,60m, tendo de enfrentar ondas de mais de 2 metros de altura, com um colete que era apenas uma peça de borracha inflável acionado por uma corda, e ao qual, na subcultura estabelecida no grupo era uma vergonha recorrer, é ridicularizado pelo instrutor.

O instrutor perguntou se o homenzinho queria desistir antes que as ondas o machucassem, mas o resoluto soldado gritava que não iria desistir. O instrutor soprou-lhe ao ouvido uma frase inaudível e o garoto foi para a água. Voltou entre os primeiros colocados no exercício. McRaven conta que perguntou ao soldado o que o instrutor lhe soprara ao ouvido. “Prove que eu estou errado”, foi a resposta. Uma mente resiliente, uma mente CAVEIRA, vai resistir à tentação de desistir, de ir pelo caminho mais fácil, ou mesmo se acomodar às circunstâncias.

Uma mente caveira, como a mente preparada, vai transformar o empurrão em impulso, vai ouvir os alertas corporais, porém vai manter seu cérebro emocional sob controle. Diante de uma situação de risco, assalto, sequestro, tentativa de assassinato ou estupro, o ‘caveira’ sente medo como qualquer pessoa, mas antecipa e analisa suas possibilidades, é resiliente e absorve o impacto da crise, moldando as circunstâncias a seu favor, ou minimizando suas chances de derrota com qualquer recurso que lhe esteja à mão.

Ser caveira não é algo com o qual se nasce, porém é um reforço de habilidades inerentes, porém treináveis, que faz com que, de ovelha muda e pacientemente guiada ao matadouro, se possa moldar corpo e mente para uma atividade de guarda, de proteção própria e de terceiros, à um nível de excelência, mesmo sem pertencer a um corpo policial de elite.

2.3      APRENDENDO A SER ‘CAVEIRA’

A partir da argumentação apresentada, é possível ser ‘caveira’? A resposta é um largo ‘Sim’. O processo não é fácil, nem sequer se pretende que o seja. A partir das 09 características da pessoa resiliente de Ernesto Berg[7], podemos traçar um paralelo. Para o autor, uma pessoa resiliente é: Adaptativa, ou seja, possui flexibilidade emocional e mental. Um ‘caveira’ adapta-se ao ambiente, sabendo portar-se de modo correto ao visualizar as ameaças existentes em todo local que adentra. Ele visualiza potenciais riscos, sabe simular, e escalar sua agressividade e utilizar sua força para fugir ou lutar conforme a necessidade da situação.

A segunda e terceira características de uma pessoa resiliente pode ser sumarizada como ‘positividade’, coisa que o ‘caveira’ também possui, porém, dentro dos limites observáveis. Não se trata de ser apenas ‘otimista’, mas acreditar em um resultado positivo baseado em autoconhecimento de sua força e habilidades. A impulsão para a luta deve vir da convicção de que o treinamento o preparou ‘para aquele momento’. É o que chamo de ‘serenidade da força’, que entra em ação.

A quarta característica trabalhada por Berg é a ‘Aprendizagem’, ou seja, a capacidade de absorver a experiência e as informações que ela provê. O ‘caveira’ assimila cada informação e a usa como um ‘banco de dados’ que o alerta para situações de crise possível e o mantém em constante aperfeiçoamento enquanto aprendente de artes marciais de combate. Nunca se deixa de aprender.

A quinta característica evidencia o básico: Saiba se defender. O ‘caveira’ se constrói, se molda para a defesa. Seu estilo de vida é uma constante capacidade de andar seguro e de proteger quem ele ama ou a quem ele é contratado para proteger. A sexta e sétima características do resiliente tem a ver com ‘Relacionamento’, consigo mesmo e com os outros.

É o autoconhecimento que gera auto-estima, e a capacidade de exercer influência, fazer amigos e criar conexões com as pessoas, sejam familiares, sejam colegas de trabalho ou treino. Uma das benesses dos treinamentos em equipe destacados na obra de McRaven é a percepção de que as vitórias nas missões Seals não provém da força do comandante ou de um membro, mas da equipe.

A oitava característica do resiliente é a criatividade. O ‘caveira’ entende que algumas situações fogem das simulações de seu treinamento, portanto, sua mente deve ser capaz e flexível o bastante para ‘criar’ uma solução, fazer correlações e utilizar objetos, por exemplo, que estão à sua volta, como potenciais armas para repelir a ameaça, ou ser capaz de gerar distúrbios no oponente, por simulação ou desconexão, que lhe proporcionem a ‘janela de oportunidade’ para ataque, reatividade ou fuga.

 A última característica do resiliente, adaptável à realidade ‘caveira’ é a contínua percepção de ‘obra inacabada’. Berg diz que o resiliente melhora a cada dia. A percepção do ‘caveira’ vai além. Ele tem a certeza de que ele é continuamente um caveira ‘em construção’, uma obra nunca acabada ou perfeita, que buscará todos os dias ser melhor, mais eficiente, e mais capaz de se defender e aos seus.

3       CONSIDERAÇÕES FINAIS

Essa são as correlações existentes entre o conceito de resiliência e a defesa pessoal, notadamente a construção do que é ser ‘caveira’. Conclui-se com este ensaio que o conceito de resiliência, provindo da física, passou a ser utilizado nas ciências humanas, inclusive pela psicologia como a capacidade de resistir às pressões sem deformações permanentes.

Conclui-se ainda que há uma intersecção possível entre ser um ‘caveira’ e ser resiliente. Na verdade, é essencial característica do ‘caveira’ a capacidade de ser resiliente, até mesmo superando esse conceito e moldando a mente a uma percepção que vai além da resiliência, mas da transformação positiva da mente para enfrentar os desafios da sociedade pós-moderna.

Ser ‘caveira’ não é fácil, porém é algo totalmente possível. Com treinamento e com persistência, ou melhor, com a resolutividade de um Seal, é possível construir uma neuroplasticidade baseada na experiência, na simulação da realidade e na experimentação das próprias crises com cada vez maior capacidade de superação.

REFERÊNCIAS

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. São Paulo: Zahar editora, 2014.

BERG, Ernesto. Você é resiliente? Conheça as 9 atitudes das pessoas altamente resilientes. 08.Abr.2014. Disponível em: < https://administradores.com.br/artigos/voce-e-resiliente-conheca-as-9-atitudes-das-pessoas-altamente-resilientes> Acesso em 05.Jul.2021.

BRANDÃO, Juliana Mendanha; MAHFOUD, Miguel; GIANORDOLI-NASCIMENTO, Ingrid Faria. A construção do conceito de resiliência em psicologia: discutindo as origens. Paidéia (Ribeirão Preto), v. 21, p. 263-271, 2011.

HANSON, Rick; HANSON, Forrest. O poder da Resiliência. Rio de Janeiro: Sextante, 2019.

MCRAVEN, William H. Arrume sua Cama. São Paulo: Planeta, 2017.

UNI-RN. “Mens sana in corpore sano”. 25.Abr.2007. Atualização em 2016. Disponível em: < https://unirn.edu.br/2016/noticia/mens-sana-in-corpore-sano> Acesso em 06.Jul.2021.


[1] Spoiler para o mais novo livro do Mestre Wesley Gimenez! Fiquem ligados!


[1] BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. São Paulo: Zahar editora, 2014.

[2] BRANDÃO, Juliana Mendanha; MAHFOUD, Miguel; GIANORDOLI-NASCIMENTO, Ingrid Faria, 2011. P.264

[3] Ibidem , p. 264.

[4] HANSON, Rick, 2019, p.28

[5] UNI-RN, 2007, online.

[6] MCRAVEN, Willian H. 2017, p.28-29

[7] BERG, Ernesto, 2014, online.

[1] BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. São Paulo: Zahar editora, 2014.

[1] BRANDÃO, Juliana Mendanha; MAHFOUD, Miguel; GIANORDOLI-NASCIMENTO, Ingrid Faria, 2011. P.264

[1] Ibidem , p. 264.

[1] HANSON, Rick, 2019, p.28

[1] UNI-RN, 2007, online.

[1] MCRAVEN, Willian H. 2017, p.28-29

[1] BERG, Ernesto, 2014, online.

E aí Caveira?

O que você achou deste conteúdo? Conte nos comentários.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

6 Replies to “O que é ser Caveira”

Carla Gualberto

Muito rico o texto e realmente estamos em constante aprendizado. Nunca seremos perfeitos mas podemos ser melhores do que somos com treinamento, respeito, foco e resiliência.

Suzi Furtado

Ser caveira não é fácil, mas é possível, quando se tem resiliência, dedicação e condições psicológicas e físicas. Eu estou aprendendo a ser Caveira. Treino kravmagacaveira a três meses e sou apaixonada por essa arte marcial israelense. Pretendo conhecer a escola de kravmagacaveira em São Paulo e tbm conhecer o mestre Wesley Gimenez

Rodrigo Rony

Excelente conteúdo, com certeza se o praticamente se esforçar para por em prática os conceitos de relisiencia como lido no artigo, os benefícios se entendem para todas às áreas da vida cotidiana.. Rodrigo Rony..Caveira.. Curitiba.

SERGIO DE AGUIAR

Achei muito interessante, e reflexivo.

Edilson Cruz da Silva

Excelente mto bom

Lucas Bononi Freitas

Excelente conteúdo que vem fortalecer a mentalidade Caveira, nos tornando cada vez mais preparados para proteger nossa vida e de quem amamos.

Mostrar Aviso